(345)
Última edição
Última Edição
Matéria de Capa
Editorial
Destaque
Perdas e Ganhos
 
Você está em:

SuperHiper

A importância de ser fiel... às vendas 23/03/2012 16:10:42

Desconfie das mulheres bonitas, mas não as maltrate. Mais do que cavalheirismo, agir assim é prova de profissionalismo e uma maneira eficaz de “conquistá-las”

 

Por Wagner Hilário

 

Fúlvio já havia presenciado alguns barracos conjugais no check-out da loja em que trabalha, o Super Concord. Certa vez, o gerente viu uma lavação de roupa suja que começou silenciosa, no fim da fila, foi ganhando volume no caminho e quase virou vias de fato na boca do caixa, depois que a esposa falou mal da mãe do marido. 

O tio de Fúlvio sempre disse que o segredo da longevidade e da saúde de um casamento é não botar mãe e pai no meio de discussões. 

— Botou um dos dois no meio, danou-se. 

Há quem diga que é infração mais séria que infidelidade. Fúlvio não concorda. ‘Inda mais quando o traído é exposto publicamente. Mas isso não é questão de um gerente de supermercado, né, não? 

— A vida não é assim: oito-oitenta. Pra lidar com o público, é preciso ter um quê de psicólogo. Por isso, tenho de entender dessas coisas também — costumava dizer Fúlvio aos que o criticavam por bater papo demais com os clientes. 

Pra ser um bom gerente, ele tinha de fazer escolhas certas em situações críticas, como brigas de casal na loja. Fazendo jus à bandeira do estabelecimento, ele geralmente era bem-sucedido nesse propósito, como no caso da esposa que pôs a mãe do marido no meio do entrevero. Fúlvio se aproximou de ambos e, muito educadamente, em voz baixa, de modo que só os dois ouvissem, disse algo como: “Em briga de marido e mulher não se bota pai e mãe na colher”. 

O casal se surpreendeu com a intromissão polida e sensata do gerente. Esperavam ação enérgica, do tipo: “não podemos tolerar que algo do gênero ocorra aqui”. Se isso acontecesse, estavam prontos pra transferir a raiva momentânea que nutriam um pelo outro pra Fúlvio. Mas ele se saiu bem, agradou ao casal, que se desculpou discretamente, e ainda foi parabenizado e agradecido pela senhora que vinha atrás, na fila do caixa. 

Evitando abordagem mais dura, Fúlvio garantiu que o casal continuasse a comprar na loja, mesmo que nem sempre viessem juntos. Mas a grande vitória do gerente-psicólogo viria depois, num caso que suscitou em Fúlvio embate íntimo entre o dever profissional (jogo de cintura) e alguns de seus valores morais. 

O casal desta história, como o da anterior, também estava na fila. A mulher, uma bela morena de olhar penetrante, mexia nos cabelos insistentemente e olhava pr’os lados, com pressa. O homem, de estatura mediana, pouco acima do peso e de meia-idade, estava alheio a tudo; sempre que podia admirava a companheira, com sorriso derretido nos lábios. Não era a primeira vez que Fúlvio os via por lá. 

A atitude da moça... Na verdade, a moça propriamente dita, em todo o seu esplendor físico (sejamos sinceros), despertou a atenção de Fúlvio, que ficou observando-a. A beleza dela o distraiu de qualquer suspeita sobre a atitude angustiada que tinha. Por isso, a “vigilância” feita pelo gerente teria pouca ou nenhuma utilidade prática no sentido de “prevenir perdas”.  

Mas felizmente pr’o nosso herói, essa atenção fiscalizadora se revelaria desnecessária. No Concord, acoplado aos check-outs, há antenas antifurto. Se alguém tentar furtar da loja produto com essa etiqueta, o crime se pronunciará na passagem do caixa... 

— “Piii! Piii! Piii!”  

O susto do até então hipnotizado Fúlvio só não foi maior do que o constrangimento da moça, que arregalou os olhos, incrédula, quando levou a bofetada sonora do alarme na orelha ao passar pelas antenas do caixa, enquanto o marido, namorado, seja lá o que fosse, aguardava o registro das compras pra efetuar o pagamento. O alarme disparou na passagem dela, quando ia pr’o fundo do check-out pra ajudar a empacotar as compras. 

Fúlvio não podia acreditar que houvesse alguma irregularidade maquiada sob aquela beleza toda. Ela trajava sandália, bermudinha e camiseta regata justa e trazia uma bolsa pequena sob o braço. Mas não era só por ela: ele vestia camisa polo, bermuda social e sapatênis. O casal era insuspeito. Só podia ser um mal-entendido e Fúlvio estava disposto a resolvê-lo. Encaminhou-se pr’o caixa do imbróglio e, com a autoridade de gerente, se pronunciou: 

— Desculpem — disse Fúlvio, chamando a atenção do casal, desligando a antena e cheio de riso na boca. — Acho que houve algum problema com o equipamento. 

O semblante da moça, carregado de constrangimento, por um momento se desanuviou. Porém, não demorou a ficar cinza de novo.  

— Agora — continuou Fúlvio, em tom baixo, pra que os outros clientes não ouvissem —, por uma questão de procedimento, precisamos olhar a bolsa da senhora. Não nos leve a mal... 

Ele sabia que não era agradável e acreditava ser apenas uma medida protocolar. Tentou explicar isso ao casal e achou que não haveria resistência, mas foi surpreendido pela reação da beldade, que não poupou voz pra dizer: 

— É um absurdo o constrangimento pelo qual estão me fazendo passar. Não vou abrir bolsa nenhuma. Vou embora. — Olhou pr’o acompanhante e completou: — Não vamos levar nada. 

Porém, Fúlvio não era o único surpreendido na história. 

— Que é isso?! O rapaz acabou de dizer que é um problema do equipamento, ele só quer cumprir o procedimento — disse o marido. 

— Se é falha no equipamento não tem procedimento nenhum a cumprir. 

— Minha senhora, nós somos obrigados... 

A morena fez gesto de interromper Fúlvio, mas antes que vociferasse algo contra o gerente de novo, o marido ordenou, sem exaltação, mas com firmeza assustadora no olhar: 

— Abre a bolsa. 

A moça engoliu a seco e parecia à beira do choro. Abriu a bolsa ao gerente, que intuiu que havia algo mais grave do que se podia supor prestes a se revelar. 

— Só vou dar uma olhada protocolar, senhora — disse o gerente. 

Chegou os olhos bem perto da abertura da bolsa, rezando pra que não houvesse nenhum objeto furtado ali. Olhou e viu o que havia disparado o alarme da antena antifurto: um pacote de camisinhas. Não havia nenhum outro produto embalado e etiquetado dentro da bolsa. Só o pacote de camisinha. Um pacote de camisinhas roubado na companhia do marido, namorado, seja lá o que fosse, sem que ele soubesse, afinal ordenou que se abrisse a bolsa.  

Fúlvio pensou em colocar a mão no pacote pra tirá-lo e mostrar a todos o furto da adúltera, a prova do crime legal e moral, pra alçar-se aos olhos dos varões ali presentes como justiceiro dos homens traídos. Antes mesmo de tirar o pacote da bolsa, já via a reação do marido da morena, sentando-lhe a mão na orelha e depois a deixando só e humilhada no caixa do supermercado, exposta ao apedrejamento ocular de todos os falsos moralistas presentes. 

Mas justamente esse raciocínio trouxe um raio de sensatez que o atingiu, em cheio. Pensou: “não posso atirar a primeira pedra”. A exposição pública da infiel e do marido traído com certeza os afastaria pra sempre da loja. Se ela era infiel no casamento, que se mantivesse fiel ao supermercado. Já no caso do marido: o que os olhos não veem, o coração não sente. Melhor poupá-lo. Sem tirar os olhos de dentro da bolsa, ele pensou rápido. 

— Aqui. Acho que foi esse pen drive que disparou o alarme — disse, apontando o objeto na bolsa.  

A morena pegou o pen drive sem sequer olhá-lo, fixada que estava no gerente, com olhos de gratidão. O marido se adiantou e pediu o pen drive pra esposa. Queria vê-lo. No instante de distração dele, que observava o objeto, a moça tirou discretamente o pacote de camisinhas de dentro da bolsa e o entregou a Fúlvio, num gesto de gratidão. Ele o guardou no bolso. Ela riu, suave. Ele retribuiu o riso. 

— Mas o que tem a ver o pen drive com esse alarme? — perguntou o confuso o marido. 

— Não sei, mas na semana passada aconteceu a mesma coisa. O pior que foi nesse caixa. Vamos chamar a assistência técnica. Bom, mas de qualquer maneira, pedimos desculpas pelo mal-entendido. 

— Não tem problema, o senhor que me desculpe pela irritação e grosseria — retratou-se a gratíssima morena. 

O marido observou a cena, parecia orgulhoso da esposa. Depois, pagou as compras e saiu empurrando o carrinho pr’o estacionamento. ‘Tava tudo resolvido, ou quase tudo. Um senhor, assim que terminou de colocar a compra em seu carrinho, aproximou-se de Fúlvio e, bem-humorado, perguntou: 

— Vai usar as camisinhas? Não se esqueça de pagar, hem? — terminou a piada quase gargalhando. 

Fúlvio ficou sem graça, mas sorriu também.

 

Soluções do Comitê*

 

● Episódios constrangedores, mesmo entre clientes, são “antimarketing” para a loja. Faça como Fúlvio, evite-os

● Coloque o profissionalismo sempre à frente dos pontos de vistas pessoais. Numa discussão entre clientes, tome partido da loja e não de um deles

● É importante instalar antena antifurto também nos check-outs. Ela permite identificar infratores antes que saiam da loja

● Calor humano, compreensão e boas conversas fidelizam tanto ou mais que preço baixo. E cliente fiel é ganho, nunca perda

● Boa prática na abordagem de clientes suspeitos de furto é jamais colocar a mão neles e em seus pertences

 

*Comitê de Prevenção de Perdas da Abras

 

Veículo: Revista SuperHiper março de 2012



 

Últimas

» A importância de ser fiel... às vendas 23 de Março 2012, 16h10
» A fantasia dos preços 27 de Fevereiro 2012, 17h10
» Os astros e os atos de Euclides 19 de Janeiro 2012, 15h51
» A dama bela e farta, o furto da manteiga e a consciência ecológica de Josenias 23 de Novembro 2011, 16h39
» Nunca é tarde pra acertar 31 de Outubro 2011, 12h21
» Olha quem “mexeu” no queijo! 25 de Agosto 2011, 17h47
» Santo do pau oco 28 de Julho 2011, 11h10
» De tirar o chapéu 05 de Julho 2011, 10h22
» Num clique, o fruto virou furto 24 de Maio 2011, 16h39
» Abracadabra! Sumiram as bebidas 25 de Abril 2011, 17h25

Ver mais »
01 Comentários Comentar

Envie seu comentário


Nome:


E-mail:


Mensagem:


AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião de nosso portal. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ABRAS poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

SERGIO FERREIRA DE LIMA

postado:
18 de Abril 2012, 16h37
tenho uma empresa e quero anucia na revista com eu faço