Desconfie das mulheres bonitas, mas não as maltrate. Mais do que cavalheirismo, agir assim é prova de profissionalismo e uma maneira eficaz de “conquistá-las”
Por Wagner Hilário
Fúlvio já havia presenciado alguns barracos conjugais no check-out da loja em que trabalha, o Super Concord. Certa vez, o gerente viu uma lavação de roupa suja que começou silenciosa, no fim da fila, foi ganhando volume no caminho e quase virou vias de fato na boca do caixa, depois que a esposa falou mal da mãe do marido.
O tio de Fúlvio sempre disse que o segredo da longevidade e da saúde de um casamento é não botar mãe e pai no meio de discussões.
— Botou um dos dois no meio, danou-se.
Há quem diga que é infração mais séria que infidelidade. Fúlvio não concorda. ‘Inda mais quando o traído é exposto publicamente. Mas isso não é questão de um gerente de supermercado, né, não?
— A vida não é assim: oito-oitenta. Pra lidar com o público, é preciso ter um quê de psicólogo. Por isso, tenho de entender dessas coisas também — costumava dizer Fúlvio aos que o criticavam por bater papo demais com os clientes.
Pra ser um bom gerente, ele tinha de fazer escolhas certas em situações críticas, como brigas de casal na loja. Fazendo jus à bandeira do estabelecimento, ele geralmente era bem-sucedido nesse propósito, como no caso da esposa que pôs a mãe do marido no meio do entrevero. Fúlvio se aproximou de ambos e, muito educadamente, em voz baixa, de modo que só os dois ouvissem, disse algo como: “Em briga de marido e mulher não se bota pai e mãe na colher”.
O casal se surpreendeu com a intromissão polida e sensata do gerente. Esperavam ação enérgica, do tipo: “não podemos tolerar que algo do gênero ocorra aqui”. Se isso acontecesse, estavam prontos pra transferir a raiva momentânea que nutriam um pelo outro pra Fúlvio. Mas ele se saiu bem, agradou ao casal, que se desculpou discretamente, e ainda foi parabenizado e agradecido pela senhora que vinha atrás, na fila do caixa.
Evitando abordagem mais dura, Fúlvio garantiu que o casal continuasse a comprar na loja, mesmo que nem sempre viessem juntos. Mas a grande vitória do gerente-psicólogo viria depois, num caso que suscitou em Fúlvio embate íntimo entre o dever profissional (jogo de cintura) e alguns de seus valores morais.
O casal desta história, como o da anterior, também estava na fila. A mulher, uma bela morena de olhar penetrante, mexia nos cabelos insistentemente e olhava pr’os lados, com pressa. O homem, de estatura mediana, pouco acima do peso e de meia-idade, estava alheio a tudo; sempre que podia admirava a companheira, com sorriso derretido nos lábios. Não era a primeira vez que Fúlvio os via por lá.
A atitude da moça... Na verdade, a moça propriamente dita, em todo o seu esplendor físico (sejamos sinceros), despertou a atenção de Fúlvio, que ficou observando-a. A beleza dela o distraiu de qualquer suspeita sobre a atitude angustiada que tinha. Por isso, a “vigilância” feita pelo gerente teria pouca ou nenhuma utilidade prática no sentido de “prevenir perdas”.
Mas felizmente pr’o nosso herói, essa atenção fiscalizadora se revelaria desnecessária. No Concord, acoplado aos check-outs, há antenas antifurto. Se alguém tentar furtar da loja produto com essa etiqueta, o crime se pronunciará na passagem do caixa...
— “Piii! Piii! Piii!”
O susto do até então hipnotizado Fúlvio só não foi maior do que o constrangimento da moça, que arregalou os olhos, incrédula, quando levou a bofetada sonora do alarme na orelha ao passar pelas antenas do caixa, enquanto o marido, namorado, seja lá o que fosse, aguardava o registro das compras pra efetuar o pagamento. O alarme disparou na passagem dela, quando ia pr’o fundo do check-out pra ajudar a empacotar as compras.
Fúlvio não podia acreditar que houvesse alguma irregularidade maquiada sob aquela beleza toda. Ela trajava sandália, bermudinha e camiseta regata justa e trazia uma bolsa pequena sob o braço. Mas não era só por ela: ele vestia camisa polo, bermuda social e sapatênis. O casal era insuspeito. Só podia ser um mal-entendido e Fúlvio estava disposto a resolvê-lo. Encaminhou-se pr’o caixa do imbróglio e, com a autoridade de gerente, se pronunciou:
— Desculpem — disse Fúlvio, chamando a atenção do casal, desligando a antena e cheio de riso na boca. — Acho que houve algum problema com o equipamento.
O semblante da moça, carregado de constrangimento, por um momento se desanuviou. Porém, não demorou a ficar cinza de novo.
— Agora — continuou Fúlvio, em tom baixo, pra que os outros clientes não ouvissem —, por uma questão de procedimento, precisamos olhar a bolsa da senhora. Não nos leve a mal...
Ele sabia que não era agradável e acreditava ser apenas uma medida protocolar. Tentou explicar isso ao casal e achou que não haveria resistência, mas foi surpreendido pela reação da beldade, que não poupou voz pra dizer:
— É um absurdo o constrangimento pelo qual estão me fazendo passar. Não vou abrir bolsa nenhuma. Vou embora. — Olhou pr’o acompanhante e completou: — Não vamos levar nada.
Porém, Fúlvio não era o único surpreendido na história.
— Que é isso?! O rapaz acabou de dizer que é um problema do equipamento, ele só quer cumprir o procedimento — disse o marido.
— Se é falha no equipamento não tem procedimento nenhum a cumprir.
— Minha senhora, nós somos obrigados...
A morena fez gesto de interromper Fúlvio, mas antes que vociferasse algo contra o gerente de novo, o marido ordenou, sem exaltação, mas com firmeza assustadora no olhar:
— Abre a bolsa.
A moça engoliu a seco e parecia à beira do choro. Abriu a bolsa ao gerente, que intuiu que havia algo mais grave do que se podia supor prestes a se revelar.
— Só vou dar uma olhada protocolar, senhora — disse o gerente.
Chegou os olhos bem perto da abertura da bolsa, rezando pra que não houvesse nenhum objeto furtado ali. Olhou e viu o que havia disparado o alarme da antena antifurto: um pacote de camisinhas. Não havia nenhum outro produto embalado e etiquetado dentro da bolsa. Só o pacote de camisinha. Um pacote de camisinhas roubado na companhia do marido, namorado, seja lá o que fosse, sem que ele soubesse, afinal ordenou que se abrisse a bolsa.
Fúlvio pensou em colocar a mão no pacote pra tirá-lo e mostrar a todos o furto da adúltera, a prova do crime legal e moral, pra alçar-se aos olhos dos varões ali presentes como justiceiro dos homens traídos. Antes mesmo de tirar o pacote da bolsa, já via a reação do marido da morena, sentando-lhe a mão na orelha e depois a deixando só e humilhada no caixa do supermercado, exposta ao apedrejamento ocular de todos os falsos moralistas presentes.
Mas justamente esse raciocínio trouxe um raio de sensatez que o atingiu, em cheio. Pensou: “não posso atirar a primeira pedra”. A exposição pública da infiel e do marido traído com certeza os afastaria pra sempre da loja. Se ela era infiel no casamento, que se mantivesse fiel ao supermercado. Já no caso do marido: o que os olhos não veem, o coração não sente. Melhor poupá-lo. Sem tirar os olhos de dentro da bolsa, ele pensou rápido.
— Aqui. Acho que foi esse pen drive que disparou o alarme — disse, apontando o objeto na bolsa.
A morena pegou o pen drive sem sequer olhá-lo, fixada que estava no gerente, com olhos de gratidão. O marido se adiantou e pediu o pen drive pra esposa. Queria vê-lo. No instante de distração dele, que observava o objeto, a moça tirou discretamente o pacote de camisinhas de dentro da bolsa e o entregou a Fúlvio, num gesto de gratidão. Ele o guardou no bolso. Ela riu, suave. Ele retribuiu o riso.
— Mas o que tem a ver o pen drive com esse alarme? — perguntou o confuso o marido.
— Não sei, mas na semana passada aconteceu a mesma coisa. O pior que foi nesse caixa. Vamos chamar a assistência técnica. Bom, mas de qualquer maneira, pedimos desculpas pelo mal-entendido.
— Não tem problema, o senhor que me desculpe pela irritação e grosseria — retratou-se a gratíssima morena.
O marido observou a cena, parecia orgulhoso da esposa. Depois, pagou as compras e saiu empurrando o carrinho pr’o estacionamento. ‘Tava tudo resolvido, ou quase tudo. Um senhor, assim que terminou de colocar a compra em seu carrinho, aproximou-se de Fúlvio e, bem-humorado, perguntou:
— Vai usar as camisinhas? Não se esqueça de pagar, hem? — terminou a piada quase gargalhando.
Fúlvio ficou sem graça, mas sorriu também.
Soluções do Comitê*
● Episódios constrangedores, mesmo entre clientes, são “antimarketing” para a loja. Faça como Fúlvio, evite-os
● Coloque o profissionalismo sempre à frente dos pontos de vistas pessoais. Numa discussão entre clientes, tome partido da loja e não de um deles
● É importante instalar antena antifurto também nos check-outs. Ela permite identificar infratores antes que saiam da loja
● Calor humano, compreensão e boas conversas fidelizam tanto ou mais que preço baixo. E cliente fiel é ganho, nunca perda
● Boa prática na abordagem de clientes suspeitos de furto é jamais colocar a mão neles e em seus pertences
*Comitê de Prevenção de Perdas da Abras
Veículo: Revista SuperHiper março de 2012