
Convenção...
Grandes ideias, bons resultados, muito otimismo
Em meio à crise internacional, supermercados e economia brasileira seguem impávidos e contagiam de otimismo a solenidade de abertura do maior evento do setor no País
Por Wagner Hilário
Os números da economia nacional e do setor, em meio à maior crise da história do mundo globalizado, reforçaram o clima de otimismo existente no jantar de abertura da 43ª Convenção Abras, no dia 22 de setembro, no World Trade Center (WTC), em São Paulo. Ao evento compareceram 700 empresários e executivos de supermercados e indústrias, além de representantes do governo: o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles; do ministro da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolin e do secretário nacional de Comércio e Serviços, Edson Lupatini.
O anfitrião do encontro, o presidente da Abras, Sussumu Honda, deu início à solenidade destacando a importância do conhecimento para os empresários do setor, sobretudo em um mundo globalizado. “Esta é uma oportunidade incrível para aprendermos mais e aprimorarmos nossos negócios e os eventos anteriores já mostraram isso. Afinal, os maiores especialistas mundiais nos falarão de temas diretamente ligados à atividade supermercadista.”
Sussumu ainda tratou do momento vivido pelo Brasil e pelos seus supermercados, que, mesmo sem que a crise tenha sido debelada mundo afora, apresentam crescimento, no caso do varejo alimentar, expressivo. “Há exatamente um ano, quando a crise explodiu, estávamos otimistas, mas cheios de desconfiança. Agora, diante da reação de nossa economia e de nosso setor à crise, o otimismo é muito maior.”
O presidente da Abras enalteceu os 2% de crescimento no volume de vendas do autosserviço nacional até agosto deste ano e os mais de 5% verificados em faturamento. “As estimativas para o fechamento do ano seguem em linha com os números alcançados até aqui. Embora nossa projeção oficial fosse faturar 4,5% no acumulado de 2009, os números recentes nos permitem expandir esse percentual para 5%.”
Antes de encerrar o discurso, Sussumu reiterou os agradecimentos às autoridades, executivos e empresários presentes ao evento e salientou o forte trabalho que os inúmeros órgãos da Abras têm realizado, caso da revista SuperHiper, cuja tiragem de 36 mil exemplares mantém informados empresários do setor em todo o País; e da Fundação Abras, que por meio da Escola Nacional de Supermercados (ENS) forma, também Brasil afora, profissionais multiplicadores de conhecimento voltado à operação supermercadista.
Em comemoração aos dez anos da ENS, completados neste ano, assim que Sussumu concluiu seu discurso, entregou, em nome da Abras, prêmio à Associação Amapaense de Supermercados (Amasp), na figura de seu presidente, Josué Sousa Rocha, por ser a entidade estadual que mais usa os cursos desenvolvidos e oferecidos pela Escola.
Consumidor
Um dos temas que mais preocupam Sussumu Honda e a Abras foi tratado na segunda participação da noite (ler artigo nesta edição). O diretor do DPDC, Ricardo Morishita, não fez rodeios. “O desrespeito às leis de precificação é algo que muito me preocupa nos supermercados. A lei em vigor — que prevê a precificação e a identificação dos itens correspondentes por meio de etiquetas de gôndola — partiu do próprio setor há alguns anos, para substituir a precificação item a item. Ainda assim, ela é descumprida. A pressão de grande parte da sociedade pelo retorno à precificação item a item é muito grande, o que seria um retrocesso. Porém, não há o que fazer se os supermercados não se enquadrarem às exigências legais de uma vez por todas”, declarou.
Morishita ainda disse que a atividade supermercadista responde por apenas 2% das reclamações dos consumidores, sendo que os dois principais motivos de reclamação são os problemas nos produtos vendidos, em primeiro lugar, e serviços financeiros — cartões privados ou de terceiros —, em segundo. Os produtos que respondem pela maior parte das reclamações são os bens duráveis, como eletroeletrônicos, e as principais causas dos problemas são a falta de clareza nos contratos — a começar pelo contrato firmado entre o varejista e o fornecedor —, as cobranças indevidas e os defeitos.
O presidente do DPDC acredita que a melhor maneira de resolver esses problemas seja trabalhar pela qualidade dos contratos. Os contratos — em todas as etapas da cadeia — devem prever possíveis falhas e serem inteligíveis, claros, senão os problemas permanecerão. “Neste ano completamos 20 anos de Código de Defesa do Consumidor. Conseguimos vários avanços nessa área ao longo desse período, mas esperamos conseguir ainda pelos próximos 20 anos. Assim, contamos com a ajuda de vocês para que haja menos conflito e mais cooperação, para que haja um forte processo de autorregulamentação. Esse é o caminho para que tenhamos um novo e melhor Código de Defesa do Consumidor daqui a 20 anos”, disse Morishita.
“Pescando” oportunidades
O segundo convidado da noite a subir à bancada foi o secretário do Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Edson Lupatini, que não poupou elogios aos supermercados, aos quais chamou de “alavanca da economia, motor que eleva a autoestima dos brasileiros”.
“O setor supermercadista tem sido um parceiro do governo para todas as horas. Tem participação essencial no desenvolvimento de políticas públicas para os setores de comércio e serviços no País. O resultado dessa parceria é que recentemente o presidente Lula — Luiz Inácio Lula da Silva — nos pediu que desenvolvêssemos uma política de exportação das redes supermercadistas brasileiras a países africanos, como Zâmbia, Angola, Moçambique e África do Sul”, afirmou (veja boxe nesta reportagem).
De acordo com Lupatini, as notícias são boas. “Já há conversas adiantadas com Angola e o governo brasileiro se compromete com apoio financeiro por meio de financiamentos. Acreditamos que os supermercados e o governo brasileiro podem construir uma nova história nos e para os países da África.”
A penúltima palestra da noite foi proferida pelo ministro da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolin, que enalteceu o trabalho do setor no sentido de aumentar o consumo do pescado no Brasil por meio de campanhas promocionais como a Semana do Peixe, que ocorre anualmente e da qual os supermercados têm participado quase em todas as oportunidades.
O fato é que, apesar de todos os avanços, o potencial de consumo do País e, sobretudo, produtivo são muito maiores. “O Brasil pode ser um grande produtor de pescado internacional. Calculamos que essa atividade, em toda a sua cadeia, possa gerar R$ 160 bilhões de receita ao ano. Apenas no setor primário, geraria R$ 40 bilhões. Atualmente, nosso principal problema é a produção, já que por ano importamos 16% do que consumimos”, comentou Gregolin.
Sem milagres
Algumas pessoas veem com estupefação o desempenho da economia brasileira em meio ao cenário de crise financeira internacional, mas o presidente do Banco Central do Brasil (BC), Henrique Meirelles, e um dos principais responsáveis pelo salutar “paradoxo”, explicou por que o País não precisou refugar diante do obstáculo nem sequer tocou a baliza ao superá-lo, mantendo a trajetória ascendente de sua economia.
“O Brasil entrou na crise com bases econômicas muito sólidas e com um sistema financeiro também muito sólido. Nosso nível de endividamento era baixo e a principal fonte de expansão econômica era o mercado interno. É evidente que por estar inserido na economia global seria, em algum momento, atingido e o foi quando a crise afetou a oferta internacional de crédito. Era algo bastante preocupante, que chegou a ter reflexo em alguns setores industriais brasileiros, como o automobilístico. Começamos a ter demissões. Mas as crises do setor financeiro são muito parecidas com ataques cardíacos: se forem tomados os cuidados adequados nos primeiros quatro minutos, as consequências serão bem menos danosas, muitas vezes sem sequelas. Foi o que aconteceu também: usamos parte das reservas em moeda estrangeira de que dispúnhamos e lançamos mão de estratégias de incentivo ao consumo, por meio de redução de impostos em áreas essenciais para o bom andamento da economia”, explanou Meirelles.
De acordo com o presidente do BC, nenhuma dessas ações teria surtido efeito se o País não estivesse com as bases econômicas solidamente fincadas. Se não tivesse reservas em moeda estrangeira em abundância, não haveria como usá-las para garantir liquidez à economia. “Tínhamos tração de saída, o que nos permitiu — mal-entrados na crise — sair dela antes da maioria dos países.” O resultado é que, um ano após a eclosão da maior crise da história econômica global, o Brasil já dispõe de mais recursos em moedas estrangeiras que dispunha antes da tempestade financeira, quando parte da reserva foi usada. “Tínhamos US$ 205 bilhões e agora temos US$ 223 bilhões. Temos mais reservas que dívidas em moedas estrangeiras atualmente.”
O dado acima corrobora a confiança do mundo na economia brasileira, o que tende a fortalecê-la cada vez mais. Outros dados o completam: os juros em queda; a queda da dívida no período de crise, enquanto os países desenvolvidos aumentaram suas dívidas; o aumento da oferta de crédito, que hoje já responde por 45% do PIB brasileiro; o aumento da massa salarial, que neste ano já soma 4,5% de crescimento real; a expansão do salário real, que nesse período foi 3,4%; desemprego em níveis inferiores à fase pré-crise; os 18 milhões de pessoas que saíram da classe baixa e ingressaram na classe média; etc. “Hoje desfrutamos de previsibilidade econômica e ser previsível, nesse caso, é saudável. Temos a inflação sob controle e um País em ascensão.”
MDIC defende lojas brasileiras na África
Representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) marcaram presença na 43ª Convenção Abras para mostrar aos supermercadistas de todo o Brasil a possibilidade de internacionalizarem suas empresas, por meio da instalação de lojas no continente africano.
Para isso, o secretário de Comércio e Serviços do Ministério, Edson Lupatini, mostrou algumas ações do Governo Federal para a viabilização desse projeto. Entre elas, a concessão de financiamentos a taxas de juros convidativas por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico Social (BNDES). A instituição concederá linhas de crédito para a concretização de projetos de construção e aquisição de bens e mercadorias.
Ações promocionais também serão apoiadas pelo Ministério, conforme Lupatini. Além disso, os empresários contarão com mecanismos que os protegerão de possíveis riscos comerciais e políticos, como moratórias e golpes de estado.
Os supermercadistas interessados em expandir internacionalmente suas redes terão a oportunidade de realizar uma visita técnica a quatro países africanos: Moçambique, Angola, Zâmbia e África do Sul. Inicialmente, a viagem está marcada para o início do mês de novembro. “Também será elaborada uma cartilha explicativa para os profissionais do setor”, afirmou Lupatini.
Para o presidente da Abras, Sussumu Honda, iniciativas desse tipo são de extrema importância para revelar oportunidades de negócios existentes em outros mercados em desenvolvimento, e não só no que diz respeito à exportação de produtos. “Essa é uma semente que se planta e o setor precisa olhar com mais atenção para isso”, finalizou.
Cran reúne dezenas de supermercadistas
Durante a 43ª Convenção Abras foi realizada reunião do Comitê de Redes e Associações de Negócios (Cran). O encontro contou com a presença de aproximadamente 20 representantes de empresas de vários estados brasileiros.
Na ocasião, os supermercadistas trocaram experiências sobre diversos temas, como Regime Tributário Especial, Distribuição Tributária e relacionamento com o fornecedor. Também assistiram a apresentação da diretora de Retail & Shopper Insights da LatinPanel, Fatima Merlin. A executiva mostrou os resultados da 9ª Pesquisa de Redes e Associações de Negócios, divulgada na íntegra por SuperHiper em sua última edição.
Para completar, a entidade divulgou aos participantes informações detalhadas sobre os cursos da Escola Nacional de Supermercados (ENS), que fez dez anos em setembro. Entre as novidades apresentadas pelo gerente da Fundação Abras, Marcos Manéa, está a parceria firmada com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) para a capacitação de profissionais de peixaria. O novo curso está em fase de elaboração e em breve será ministrado para multiplicadores de todo o País.
Estaduais reúnem-se durante a Convenção
Os executivos das entidades estaduais do setor supermercadista reuniram-se no dia 22 de setembro, no WTC Sheraton, em São Paulo, para discutir assuntos pertinentes a todas elas. Na ocasião, o diretor executivo da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), Antonio Carlos Poletini apresentou pesquisa realizada pela entidade com os supermercadistas catarinenses. Nela, foram destacados como o setor está estruturado nos quesitos tecnologia, recursos humanos e também qual a percepção que os associados têm da Acats. Na seqüência, o secretário executivo da Associação Sul-Mato-Grossense de Supermercados, (Amas), Raphael Villa Maior, também destacou as realizações da Amas, com ênfase para a concretização das obras da nova sede da Amas, além da campanha de Natal focada nos aspectos operacionais do setor.
Veículo: Revista SuperHiper edição outubro de 2009