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Anos incríveis

Desde 2006 o País vive um momento de grande retomada de confiança.

Para 2010, as perspectivas para o encerramento do ano são de crescimento do PIB da ordem de 7,5%, um resultado que não registramos desde o já longínquo ano de 1986, em plena efervescência do Plano Cruzado. De lá pra cá, já se passaram 25 anos... Acompanhe um panorama da economia brasileira e mundial

 

Por Flávio Tayra

 

Nunca fomos tão felizes. Ao menos não na economia, desde o início da década de 1970, quando a taxa de crescimento do Brasil chegou a 14% a.a. (1973).

O fato é que desde os anos 70 não experimentamos um período tão positivo em termos econômicos. E o momento atual parece bem mais consistente do que há quase 40 anos, pois agora o País é aberto, tem economia bem diversificada, uma indústria mais competitiva e um consumidor com muito maior poder de compra, advindo da melhor distribuição de renda ocorrida nos anos recentes, principalmente após o período de estabilização da inflação dos anos 90. Um excelente cenário para o setor de supermercados e para o varejo em geral.

Com exceção do complicado ano de 2009, quando a economia recuou 0,2%, desde 2006 o País vive um momento de grande retomada da confiança, e para 2010 as perspectivas para o encerramento do ano são de crescimento da ordem de 7,5%, resultado que não registramos desde o já longínquo ano de 1986, em plena efervescência – artificial – do Plano Cruzado, que só durou até o ano seguinte.

Em resumo, trata-se do melhor ano da economia brasileira em 25 anos, embora seja bom ressaltar que devido à crise internacional a base de comparação com 2009 favoreceu tal resultado. Destacado tal fato, é inegável que as condições macroeconômicas brasileiras melhoraram muito.

Para 2011, no entanto, as expectativas de mercado captadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, ao final do mês de outubro davam conta de um arrefecimento do nível de atividade econômica no Brasil. As projeções indicam crescimento da ordem de 4,5% no ano. O que é natural para um país que ainda se ressente de carências de infraestrutura e que ainda precisa incrementar em muito seu nível de investimento para poder crescer a altas taxas durante anos seguidos sem que isso provoque pressões de demanda e gargalos de oferta, com impactos nos níveis de inflação.

Ainda que sob tais condições, em 2001 o PIB industrial deverá crescer um pouco mais que os demais segmentos e deverá atingir 5,3%, após ter desabado 5,2% em 2009. Segundo o Informe Conjuntural do terceiro trimestre da Confederação Nacional da Indústria, a entidade estimava em 12,3% a taxa esperada de expansão do PIB industrial em 2010, assim como o crescimento de 24,5% na Formação Bruta de Capital Fixo (investimentos e ampliação do parque produtivo).

 

Na visão da CNI, apesar da elevação da estimativa de crescimento do PIB, a valorização do câmbio impede crescimento ainda maior da produção industrial. Ao mesmo tempo em que a economia continua crescendo tendo a demanda doméstica como seu motor principal, a produção não tem acompanhado o mesmo ritmo, dada a sua dificuldade em concorrer com os produtos importados.

O setor de serviços, no qual se incluem os supermercados, deverá manter o ritmo de

crescimento consistente dos últimos anos e crescer 4,4% em 2011, segundo as projeções do Banco Central. Em 2009, foi esse o setor que possibilitou ao Brasil a obtenção de um dos melhores resultados em termos econômicos no cenário global. O setor foi responsável pela geração de 70% dos empregos formais no País e respondeu por 68,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano. Além disso, a corrente de comércio de serviços do Brasil com outros países alcançou US$ 73,2 bilhões em 2009.

 

Mundo

Em âmbito internacional, entre as nações de maior relevo econômico apenas a China (crescimento de 8,7%) e Índia (5,7%) lograram obter resultado superior ao brasileiro em 2009. Os EUA, principal economia do planeta e epicentro da crise, apresentaram recessão de 2,44% naquele ano. A Rússia, o R do Bric (acrônimo criado pelo Goldman Sachs em 2001 para designar as potências emergentes), recuou fortemente no ano (-7,9%), mas já apresenta recuperação em 2010, assim como os EUA, que deverão crescer 3,1% em 2010 segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A recuperação americana, no entanto, ainda é lenta. A taxa de desemprego nos Estados Unidos manteve-se próxima de 10% durante todo o ano de 2010 e, segundo analistas, não há perspectivas de que possa baixar no curto prazo. Calcula-se que mais de 8 milhões de americanos tenham perdido seus empregos durante a recessão nos Estados Unidos, que tecnicamente durou 18 meses, até junho de 2009.

A escalada chinesa, por sua vez, ainda está longe de terminar. Um elemento peculiar da ascensão da economia do país asiático é o fato de que 53% de sua população ainda continua vivendo no campo. São 700 milhões de pessoas que ainda podem ser incorporadas à era industrial e ao mercado consumidor. Um imenso potencial de mercado, equivalente ao tamanho de três Brasis.

Calcula-se que cerca de 60% dessa população deva se transferir para as cidades nos próximos 20 anos, ou seja, cerca de 400 milhões de camponeses deverão se mudar para as cidades, no que deve ser uma das principais fontes estruturais de crescimento da China. Essas pessoas vão precisar de casa e infraestrutura, o que implica o consumo de aço, cimento, energia e o emprego de milhões de operários. 

Com tanta massa de trabalho disponível e vivendo ainda em condições abaixo da linha de pobreza, é de se pressupor que a indústria chinesa deverá continuar competitiva em segmentos de baixo valor agrega do, como brinquedos, calçados e têxteis, ao mesmo tempo em que sobe na escala de valor e produz bens de tecnologia cada vez mais sofisticada.

O país já é, por exemplo, um dos líderes na produção de turbinas de vento para a geração de energia eólica (a que mais deverá crescer nos próximos anos e das mais sustentáveis ambientalmente, a energia do futuro). Em oposição a outros países, que abandonavam as indústrias de baixo valor agregado na medida em que galgavam a lista das maiores economias do mundo, a China ainda vai mantê-las por algumas décadas, ao mesmo tempo em que desenvolve setores de alta tecnologia.

A Índia, por sua vez, continua crescendo rapidamente, tendo até possibilidades de ultrapassar a China nas próximas décadas.

Um dos seus trunfos é a sua demografia, pois além de apresentar crescimento populacional mais elevado, sua estrutura é bem mais jovem, contando com mais mão de obra ativa e menos idosos dependentes. O seu sistema democrático também atrai muitos que têm ideologias que dão grande importância às liberdades de iniciativa, que fazem com que o seu setor privado seja mais expressivo. No país, a classe E está sendo incorporada ao mercado pela iniciativa privada, que cria produtos acessíveis ao nível de renda médio da população.

 

Crise européia 

Nas análises do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento da zona do euro será o menor do mundo em 2010 e 2011. De acordo com as estimativas do FMI, a economia mundial crescerá 4,6% em 2010 e 4,3% em 2011. A zona do euro, no entanto, deverá crescer apenas 1% em 2010 e 1,3% no ano seguinte.

A previsão de estagnação do FMI para a economia europeia apoiou-se em dados publicados pelo Eurostat (escritório estatístico europeu) para o primeiro trimestre do ano.

Os números do Eurostat revelam variações individuais relevantes entre países. Tendo implementado um dos pacotes de austeridade mais duros de toda a Europa, a economia da Irlanda registrou o maior crescimento da região (2,7%), seguido pelo da Suécia (1,4%) e Portugal (1,1%).

No fim da lista encontra-se a economia da Lituânia, que recuou 3,9% em comparação com o último trimestre de 2009. Outras economias que também sofreram recuo são as da Áustria, Estônia, Romênia, Eslovênia e Grécia.

As economias mais frágeis da Europa, Grécia, Espanha, Portugal, entre outras, se veem diante de um aumento constante dos juros que devem pagar àqueles que investem em seus títulos públicos. Em resposta à pressão dos mercados financeiros, praticamente todos os países da Europa anunciaram medidas de austeridade que ameaçam levar ainda mais abaixo as economias que já sofrem de desemprego crescente, o que tem motivado seguidos protestos populares, como os que se verificaram na França em outubro de 2010.

 

Dólar

Um dos principais fatos que emergem neste período de crise global é a desvalorização da moeda americana. A farta oferta de moeda resultante dos planos de estabilização do sistema e a política deliberada de depreciação da moeda chinesa para maior competitividade no mercado global fazem com que os termos de troca no circuito internacional viva um de seus momentos mais quentes nos últimos anos, e foi o principal tema de discussão da reunião do grupo dos países mais ricos do mundo, o G20, realizado em Seul (Coréia do Sul) em novembro de 2010.

A desvalorização da moeda americana tem impactos potencialmente sérios no Brasil, como o risco de uma precoce desindustrialização do País, ou mesmo uma potencial desestruturação de várias cadeias produtivas, pois o real apreciado inviabiliza a produção interna de uma série de produtos.

Dessa maneira, na área cambial, a presidente Dilma Roussef experimentará o oposto da moeda que incomodou o presidente Lula no início do seu primeiro mandato.

Por conta do medo de mudanças na política econômica, antes da eleição de 2002 ocorreu uma escalada das cotações do dólar bem como a fuga de capitais externos do País.

Naquele período, o dólar chegou perto de R$ 4,00. A entrada de Henrique Meirelles no Banco Central e a firme posição do então ministro da Fazenda Antonio Palocci, de defesa da política de estabilização, conseguiram resgatar a confiança na condução econômica do País.

Atualmente, o cenário cambial é totalmente diverso do que encontrou o presidente Lula em 2003. O dólar está na casa de R$ 1,70 e parece não ter limite para cair. Um dólar baixo é bom para refrear a inflação, pois facilita o acesso ao mercado externo e não deixa que os preços dos produtos subam muito. Mas, em demasia, afeta a competitividade das exportações, que acabam se limitando àqueles produtos primários (ou de baixo valor agregado) que sempre caracterizaram a economia brasileira.

Contudo, a farta entrada de dólares também pode nos encaminhar para um processo de desindustrialização da economia (que alguns analistas dizem estar em curso).

A pretensa desindustrialização poderia até mesmo ser um processo normal, pois com a sofisticação das economias a tendência realmente é de especialização em alguns segmentos industriais de maior valor agregado e de inerentes vantagens comparativas, com o setor de serviços ganhando maior peso na economia. Esse, no entanto, ainda não é o nosso caso. Em todos os países desenvolvidos nos quais houve redução relativa da atividade industrial, principalmente europeus como Alemanha, França, Itália, Reino Unido e outros, a renda per capita se encontrava em patamar muito superior à do Brasil, quando começaram a se desindustrializar.

Portanto, é preciso combater essa tendência.

A participação da indústria no PIB era de 40% em 1975. Em 2009, esse percentual havia caído para 25%. Com a facilidade da importação, muitas cadeias produtivas acabam se desestruturando e até mesmo produtos industrializados de pouco valor agregado começam a tomar espaço dos similares nacionais.

 

Riscos

Nada indica que o dólar volte a subir no curto prazo. Pelo contrário, a moeda norte-americana deverá cair mais nos próximos meses com as novas decisões do FED (Federal Reserve, o banco central americano). Desde o início da crise, o FED tem inundado a economia de dólares através de emissão de moeda para socorrer bancos, empresas imobiliárias, automobilísticas e os devedores de hipotecas. Com isso, a base monetária saltou de cerca de US$ 800 bilhões para US$ 2,3 trilhões. Ao mesmo tempo, a taxa de juros americana caiu de 5,25%, em meados de 2007, para uma faixa entre zero e 0,25%, atualmente.

No começo de novembro, o FED anunciou que irá adquirir mais US$ 600 bilhões em títulos públicos até a metade de 2011. A medida é uma tentativa de impulsionar a lenta recuperação econômica do país, reduzindo ainda mais os custos dos empréstimos para consumidores e empresas, que ainda sofrem com o período posterior à pior recessão desde a Grande Depressão. Com a maior quantidade de dólares disponíveis, menos valor ele passa a ter. A ajuda consiste, basicamente, em comprar grandes quantidades de títulos detidos pelos bancos comerciais como forma de injetar recursos no sistema financeiro.

Com a taxa de juros já tão próxima a zero, é uma das poucas formas restantes de aumentar os recursos em circulação. Como resultado, ocorre um aumento nas reservas dos bancos comerciais, que passam a poder emprestar mais. A liquidez maior, em tese, impulsiona o crescimento da economia, aumenta as perspectivas de inflação, reduz as taxas de juros reais e, fundamentalmente, estimula a demanda. O processo de apreciação do real ainda deverá ter muitos capítulos nos próximos meses e anos.

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